Corrida #08
Eu completo, e completei, hoje, 18 de abril de 2026, 500 (quinhentos) dias correndo todos os dias, e correndo pelo menos cinco quilômetros por dia. No total, corri em torno de 4.250 quilômetros, segundo dados do meu relógio e dos aplicativos. E hoje é ainda aniversário do meu irmão. Um feliz aniversário pra ele, que em termos de corrida foi e é bem melhor que eu!
Correr por todos esses dias, além de um gasto físico e psicológico, pois muitas vezes (quase todas) eu, de fato, não queria correr (e mesmo assim fui), tem um peculiar gasto financeiro. Nesse sentido, a título de curiosidade, fiz uma planilha com todos os tênis que usei ou uso e o valor deles. Queria ter uma ideia desse investimento/gasto. Em geral, não são valores pequenos, mas dá para ter uma noção do que se gasta. Não é lá um esporte muito “barato”, digamos, apesar de muitos pensarem que seria só colocar um tênis e correr… Além do mais, aí eu só incluí os meus tênis, seja para corrida, para academia e/ou para passeio. É evidente que teria que colocar no cálculo, se ele fosse mais apurado, os gastos com alimentação (água, bananas), com vestuários, meias, bermudas, camisetas, relógio, fones de ouvido e/ou outros apetrechos.
Eu, aparentemente, gosto de planilhas. Por isso, fiz uma com todas as corridas que eu participei, pelo menos desde 2023, isto é, com todas as corridas que eu paguei para ganhar uma banana, um pouco de água, uma medalha e às vezes uma camiseta. Quando eu vejo nas redes sociais pessoas com uma quantidade monstruosa de medalhas, eu fico imaginando o quanto elas gastaram em réis com as inscrições, afinal, alguns eventos não são lá muito baratos. Bem, até o momento, foram 28 (vinte e oito) corridas realizadas e mais 6 (seis) eventos em que estou inscrito, totalizando R$ 4.291,02 (quatro mil duzentos noventa e um reais e dois centavos).
De qualquer modo, a reflexão de hoje é a seguinte: se ninguém soubesse que eu corri, eu teria corrido? Isto é, se eu não postar ou se não postasse as minhas corridas no Instagram, no Strava, ou em qualquer outra rede social, eu, mesmo assim, teria corrido? Ou melhor, se ninguém soubesse que estou correndo todos os dias, eu ainda correria? Eu, realmente, não sei a resposta. Eu penso que sim, que mesmo assim correria. Publicar não é necessário. No entanto, não é uma pergunta trivial, e a resposta não é tão linear. Talvez sim. Talvez não.
A motivação ou a razão para correr não é muito extrínseca: eu não dependo dos outros para correr, e muito menos estou correndo “por” alguém ou algo, nem por mim mesmo ou por saúde, pelo menos não diretamente. Por outro lado, muitas das vezes em que eu fiquei desmotivado, e sem vontade alguma de correr (e, inclusive, quando estava com raiva de “ter” de correr…), uma ajuda externa sempre foi bem-vinda ou até mesmo um gatilho para correr (e dessas pessoas só tenho a agradecer). Somos animais sociais e políticos, então, é algo natural da nossa espécie querer compartilhar as coisas.
O que, talvez, não seja natural é, digamos, colocar como um fim “em si mesmo” a postagem: algo como, eu corro para poder postar, para engajar nas redes, para ter curtidas, e ponto. Algo que parece estar envolvido aqui é um tipo de “espetáculo”. Eu ainda não li (e está na minha lista) o livro “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord. Mas, por outro lado, todavia, conforme Juremir Machado da Silva sobre esse livro, “[o] espetáculo, em outras palavras, é um modo de organização social, de estar no mundo, baseado na aparência, na fama e na simulação de relevância social”.
É quase um paradoxo: vivemos numa época de “influenciadores”, de pessoas “produtoras de conteúdo”, e o que menos temos são, de fato, conteúdos (estou pressupondo aqui conteúdos com algum tipo de qualidade). Afinal, como Juremir ressalta, “[n]as redes sociais, o importante é o número de cliques, de curtidas, de seguidores, de repostagens e de comentários. O conteúdo é secundário.” Então, se eu postasse as minhas corridas com a finalidade de ter um número de curtidas ou de certo engajamento, vocês não teriam dúvidas e saberiam que alguém clonou a minha conta - esse não é e nunca foi um propósito.
Afinal, mesmo que o motivo para eu estar correndo não seja lá muito preciso, um dos motivos não é “parecer ser”, não é uma “aparência” de estar correndo, não é uma “exposição” por si só, não é a construção de alguma narrativa, e sim, de uma disciplina. Infelizmente, querendo ou não, muitas vezes, pensamos que não basta fazer algo, que é preciso ainda “mostrar” que se fez. E bem, não é o caso aqui. E se pareceu ser, desculpe-me.
Afinal de contas, não posso acreditar que deixaremos de correr (por exemplo, e não se trata apenas de corridas..) se o GPS do Garmin está estragado ou se não pudermos registrar ou compartilhar nas redes... Se permitimos esse tipo de coisa, é porque falhamos e muito enquanto sociedade. Não precisamos de plateia para nossas pequenas vitórias (e até para nossas derrotas, que, diga-se de passagem, fazem parte).





Parabéns! 500 dias😮👏🏻👏🏻
Eu estou fazendo um experimento de correr sem postar e salvar só pra mim no Strava há alguns meses já. Consegui perceber que respeito mais meu ritmo do dia (muitas vezes mais lento) e senti menos vontade de participar de provas. E, realmente, não é barato, né! Seguimos!